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Campos de concentração de ciganos na França (II GM)

por Javier Bauluz | fotografia de Michel Euler

tradução de Janaína Marcoantonio

A Foto. O professor aposentado Jacques Sigot mostra as fotos de um campo de concentração em que milhares de ciganos franceses foram confinados durante a II Guerra Mundial em Montreuil-Bellay, França. 15 de setembro de 2010.

Esse vergonhoso episódio da história da França é muito pouco conhecido e nem sequer aparece nos livros escolares: sob a ocupação alemã, milhares de ciganos franceses foram presos em 31 campos de concentração administrados por seus compatriotas.

Possivelmente, o mais chocante no país que se considera o porta-voz dos direitos humanos é que eles mantiveram os ciganos presos até 1946, quase dois anos depois do fim de Vichy, o regime francês que colaborou com o nazismo.

(AP Photos/Michel Euler)

Meninos e meninas ciganos, cidadãos europeus, são vigiados pela polícia francesa enquanto são deportados ao aeroporto de Roissy. 2010 (AP Photo/Jacques Brinon)

Mais informações sobre a etnia cigana (em espanhol)

Telas latino-americanas buscam a cor da infância

por IPS • Emilio Godoy (México)

tradução de Mariana Marcoantonio

Leia aqui o artigo original em espanhol

Os produtores de programas televisivos infantis da América Latina lutam a cada dia com os poucos espaços disponíveis nas redes comerciais, a falta de financiamento e as leis que desestimulam essa atividade educativa e cultural.

“Não encontramos caminhos, nem legais nem de política pública, para garantir às crianças o exercício de seus direitos informativos”, explica a mexicana Irma Ávila, fundadora da Comunicación Comunitaria, ONG que estimula a liberdade de expressão e de informação.

Em 2003, Ávila criou o projeto Radio Bola TV, que difunde programas educativos para menores de idade através da internet. No ano passado, foi a primeira colocada no Prêmio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), na categoria Melhores Práticas das Organizações da Sociedade Civil, por seu manual de educação para os meios.

Na América Latina, México e Brasil lideram a produção audiovisual para meninas e meninos.

O estatal Canal 11 mexicano transmite materiais para esse segmento da população elaborados por rádios e sinais televisivos universitários. No Brasil, destacam-se os canais privados TV Cultura e Futura.

“Em geral, a tendência das emissoras comerciais e públicas é seguir o modelo americano da Disney, pois se considera o mais bem-sucedido. Mostrar como quebrar esse modelo é nosso dever”, assinalou Susana Valleggia, presidente da ONG Nueva Mirada, da Argentina.

Valleggia dirige o Festival Internacional de Cinema “Nueva mirada” para a Infância e a Juventude, que terá sua nona edição entre 2 e 8 de setembro, em Buenos Aires.

Temas como o direito à informação e o conteúdo, a produção e a distribuição dos programas foram os eixos de “Apantallad@s”, o primeiro Festival de Niños y ½s de Comunicación, que aconteceu na capital mexicana entre 16 e 18 de julho.

O festival, organizado pelo governo da capital mexicana, pela Universidade Autônoma do México e pela ONG Comunicación Comunitaria, buscou aproximar o Estado da produção televisiva para as crianças da região. O encontro teve uma mostra de meios para meninas e meninos, um seminário sobre o tema, um encontro de produtores cinematográficos e uma exibição de filmes de 12 países.

“Há uma necessidade de que as crianças se vejam refletidas, uma televisão que as torne participantes e lhes dê voz”, ressaltou Hazel Jirón, coordenadora de Rádio e Divulgação da ONG Fundação Puntos de Encuentro, da Nicarágua. Entre 2002 e 2006, essa instituição não-governamental produziu e transmitiu a série Creciendo, que consta de 80 capítulos dirigidos à adolescência nicaraguense e que já foi vista nas telas da Guatemala, de El Salvador, Honduras, Costa Rica e da cidade de Miami, no sudeste dos Estados Unidos.

A ONG Puntos de Encuentro se prepara para iniciar a gravação de uma série provisoriamente intitulada Puerta azul, também dirigida a jovens, que abordará temas como os direitos econômicos, sexuais e reprodutivos, a migração e a diversidade sexual. Os primeiros 20 segmentos seriam exibidos em 2011. “As crianças são consideradas pelas redes comerciais de televisão unicamente como potenciais compradores, não como cidadãos com direitos”, salientou Claudia Rodríguez, diretora de conteúdos da Mostra Ibero-americana de Televisão Infantil, organizada anualmente pela Comissão Nacional de Televisão da Colômbia.

Um dos maiores obstáculos para os produtores de programas infantis é sua colocação nas redes privadas; por essa razão, precisam recorrer a esquemas criativos para ganhar seu horário na grade televisiva. Se uma organização internacional ou não-lucrativa pauta a publicidade, os canais podem assim montar a programação.

Na capital mexicana, dezenas de meninas e meninos se reuniram em abril em um congresso infantil sobre alfabetização audiovisual. Em sua declaração final, pediram respeito por seu direito à comunicação e a aprovação de leis que velem por melhores canais e programas televisivos.

No México, as redes privadas Televisa e TV Azteca dominam o espaço televisivo com uma programação que, em essência, oferece os mesmos conteúdos estereotipados e triviais, segundo as denúncias de organizações dedicadas a promover o direito à informação. “O problema não é o monopólio privado, mas sim a falta de pluralidade e de espaços para diversos setores. Não há direitos, não há espaços. Por isso, esse é um exercício de construção de cidadania”, argumentou Ávila.

De acordo com a ONG Comunicación Comunitaria, no México, os meninos e meninas entre 6 e 12 anos passam uma média diária de 4,5 horas na frente da televisão, às quais é preciso somar as destinadas aos videogames e à navegação na internet, ao lado das quatro horas que passam na escola, em aulas efetivas. Na Colômbia, os menores de idade passam cerca de três horas por dia na frente da tela, segundo Rodríguez.

Além do mais, os meninos e meninas mexicanos observam 39 anúncios de “junk food” por hora, ao lado dos 24 transmitidos nos Estados Unidos, dos 16 na França e dos cinco na Holanda, segundo a Comunicación Comunitaria e organizações de consumidores americanas.

No entanto, na região se está caminhando para vencer as barreiras históricas. Na Argentina, a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, promulgada em outubro de 2009, estabelece a criação do Conselho Assessor da Comunicação Audiovisual e da Infância e do Fundo de Fomento Concursável para a Produção de Programas de Televisão de Qualidade para os Meninos, Meninas e Adolescentes. Na Colômbia, a Comissão Nacional de Televisão e o Ministério da Cultura criaram um fundo de 400 mil dólares para o programa Estímulos para a Produção de Televisão Infantil, pelo qual foram rodadas cinco séries para crianças. Segundo Rodríguez, a partir da pesquisa de necessidades e interesses do telespectador, foi projetado um modelo de produção para a televisão infantil.

O festival “Apantallad@s” contou com a presença de 52 produtores mexicanos e de 11 nações latino-americanas e aproximadamente 3 mil meninas e meninos da capital mexicana, nomeada para 2010 como a capital ibero-americana da cultura pela União de Cidades Capitais Ibero-americanas.

Ideologias políticas – do liberalismo ao fascismo

Autor: HEYWOOD, ANDREW
Tradutor: MARCOANTONIO, JANAINA; JANIKIAN, MARIANE
Editora: ÁTICA
Assunto: IDEOLOGIA – CIÊNCIA POLÍTICA – FILOSOFIA

Quem nunca ouviu falar na revolução socialista na Rússia, em 1917, na ascensão do nazifascismo na Alemanha, na década de 1930, ou no governo neoliberal de Margaret Thatcher e Ronald Reagan nos anos 1980? Não há como negar: a política mundial é moldada desde o século XIX pelas várias correntes ideológicas ocidentais. Assim, para entender a sociedade em que vivemos hoje, torna-se indispensável conhecer essa tradição ideológica, originada nas revoluções francesa e americana do século XVIII.
Este volume apresenta as ideologias políticas mais antigas, também chamadas “clássicas” – aquelas que dominaram o cenário político mundial sobretudo até meados do século passado. O primeiro capítulo analisa o surgimento e a evolução do conceito de ideologia, a natureza e a estrutura do pensamento ideológico e o panorama dinâmico das ideologias políticas. Os capítulos seguintes abordam uma a uma cada ideologia, organizadas de forma quase cronológica: liberalismo, conservadorismo, socialismo, nacionalismo, anarquismo e fascismo. São examinadas suas origens e evolução histórica, bem como os principais temas, valores e teorias que, em conjunto, definem sua estrutura. O autor, o britânico Andrew Heywood, também reflete sobre o desenvolvimento contemporâneo da ideologia e suas perspectivas para o século XXI. Os capítulos terminam com uma lista de questões, que propiciam bons temas para debate em sala de aula, e também sugestões de leitura.

O livro traz 66 quadros explicativos, que não apenas fornecem informações adicionais sobre importantes conceitos e pensadores de cada tradição ideológica como também esclarecem os conflitos existentes no interior das próprias ideologias. Para facilitar a leitura, os termos-chave são sempre explicados em um boxe lateral na página em que aparecem pela primeira vez.

Com revisão técnica da professora Isabel de Assis Ribeiro de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obra é um excelente material de apoio e consulta para estudantes dos anos iniciais da graduação, sobretudo de cursos como Ciências Sociais e Relações Internacionais, ou para professores e alunos do ensino médio, que encontram aqui um texto claro e didático para complementar suas aulas de História.

(Fonte: Editora Ática)

Os exilados espanhóis que revolucionaram as letras mexicanas

por Majo Siscar (México, D.F.)

tradução de Mariana Marcoantonio

Leia aqui o artigo original em espanhol

México recupera o legado dos intelectuais republicanos que acolheu

Luis Cernuda, León Felipe e Max Aub são alguns dos renomados escritores que mais influenciaram o acervo cultural local

O vento do Atlântico batia em suas caras, em suas nostalgias e na coragem de seus ideais. Maio de 1939 terminava e 1.600 espanhóis partiam da França para o México a bordo do barco Sinaia, fugindo dos horrores da guerra, da perseguição do franquismo e dos campos de concentração franceses. Para trás, deixavam os sonhos perdidos de um país melhor e, no horizonte, desenhava-se a esperança de refazer sua vida, num lugar onde eram bem recebidos e compartilhavam o idioma. Assim, no pequeno diário de bordo do poeta da Geração de 27, Juan Rejano, entre outros, aparece este poema:

Que fio tão fino, que delgado junco
– de aço fiel – nos une e nos separa
com Espanha presente na memória
com México presente na esperança.
[…]
Como em outro tempo, pelo mar salgado
te encontra um rio espanhol de sangue vermelho
de generoso sangue transbordado…
Mas és tu, agora, quem nos conquista
e para sempre, oh, velha e Nova Espanha!”

Fragmento do poema “Entre Espanha e México”, de Pedro Garfias

Fernando Gamboa e sua irmã Susana a bordo do Sinaia. Fundo de Promoção Cultural Fernando Gamboa

Em 14 de junho, chegaram ao porto de Veracruz. Foram a primeira leva de exilados republicanos no México. Ao Sinaia, seguiram os barcos Ipanema, com quase mil exilados, e Mexique, com mais de dois mil, e assim, sucessivamente, foram chegando ao México concidadãos de todas as classes sociais até princípios de 1950, quando já havia mais de 25 mil espanhóis vivendo no país. Esse foi o Estado que acolheu mais republicanos. O presidente Lázaro Cárdenas tinha apoiado a República com veemência e, uma vez derrotado, concedeu asilo político aos seus partidários, favorecendo especialmente a integração dos intelectuais na vida cultural mexicana.

Luis Cernuda, Max Aub, León Felipe, Juan Rejano, Joaquim Xirau, María Zambrano, José Gaos, Pedro Garfias, María Luisa Algarra e Luis Buñuel são alguns dos escritores, filósofos e cineastas que, repudiados e ignorados pelo franquismo, enriqueceram o acervo cultural mexicano. “Sua herança é tão importante que me atrevo a dizer que é o acontecimento cultural mais importante do México na segunda metade do século XX”, destaca Gerardo de la Cruz, subdiretor de Documentação e Publicações da Coordenação Nacional de Literatura do Instituto Nacional de Belas Artes (INBA), curador da exposição Si me quieres escribir… autores del exilio, em cartaz na Biblioteca do México até dia 15 de agosto.

São numerosas as exposições, simpósios e outras homenagens que o México oferece aos exilados espanhóis que enriqueceram esse país.

A exposição mostra “o olhar de um país enriquecido por essa geração de intelectuais e a influência da cultura mexicana em seu processo de criação”. Para tanto, reúne fotografias, retratos, livros, revistas, cartas, manuscritos e notas hemerográficas dos mais ilustres exilados e de seus filhos, os hispano-mexicanos. Estes, crescidos entre as lembranças de seus pais, criaram um forte laço com a Espanha, apesar de serem mexicanos, e suas criações envolvem essas duas identidades. A exposição é um dos numerosos reconhecimentos que o México tem dado a esses compatriotas que durante décadas foram silenciados na Espanha.

E o exílio espanhol no México não foi casual. Os laços remontam ao começo do século XX. Nas suas três primeiras décadas, Madri converte-se no refúgio de intelectuais mexicanos, nas idas e vindas da Revolução que assola este país. Além disso, a capital espanhola encontra-se em plena efervescência cultural e política, com a insígnia da Geração de 98 e o auge dos movimentos vanguardistas, suas publicações, cafés e tertúlias. Entre esses mexicanos exilados em Madri, destacam-se, na política, Martín Luis Guzmán – muito próximo do presidente Manuel Azaña – e, na cultura, Alfonso Reyes.

Ambos se converteram, junto com o pintor Fernando Gamboa, nos benfeitores do exílio espanhol no México ao terminar a Guerra Civil. “Há uma rede de amizades e projetos editoriais entre intelectuais de ambos os países estabelecida antes da guerra que favorece a integração posterior”, afirma De la Cruz. Ele cita a definição do filósofo José Gaos, natural de Gijón e exilado no México, que qualificava a si mesmo não como um exilado, mas como um transterrado, “transplantado a outra terra”, já que a história comum entre Espanha e México facilitou a integração, como se o novo país fosse uma extensão do desejo perdido.

Efraín Huerta, Max Aub e León Felipe. Fundação Max Aub

E, de fato, foi, pois, apesar de algumas invejas e muitas críticas de alguns intelectuais locais que viam seu status ameaçado, facilitou-se a sua incorporação a universidades e centros culturais. Suas ideias progressistas fortaleceram o panorama cultural mexicano, e alguns até fundaram revistas e editoras próprias. “Eles se integram completamente no México, à sua estrutura cultural e ao mercado editorial. Suas contribuições na política, na cultura, no cinema elevam o diálogo intelectual do México, que se abre para novas latitudes além do nacionalismo interno, e isso gera frutos em escritores locais, como José Emilio Pacheco, Fernando Benítez e o próprio Carlos Fuentes, que são muito próximos de Manuel Altolaguirre, Max Aub e Luis Buñuel, e bebem da sua influência”, explica De la Cruz.

No entanto, não foi um caminho fácil. Os espanhóis tiveram que trabalhar muito duro para superar os receios de alguns mexicanos e, como afirma De la Cruz, “conquistaram os seus lugares com o próprio esforço”. A maioria concebeu aqui [no México] a parte mais importante da sua obra, que obviamente se viu imbuída da voluptuosidade do novo país que estavam descobrindo. Ainda que a obsessão pela pátria perdida tenha permanecido sempre e isso se reflita em seus escritos, como ilustra o fragmento do poema “Um espanhol fala de sua terra”, do livro Las nubes, de Luis Cernuda:

Luis Cernuda, poeta sevilhano da Geração de 27; morreu no México, em 1963

Eles, os vencedores
caims sempiternos,
de tudo me arrancaram.
Me deixam o desterro.

Si el hombre pudiera decir, poema de Luis Cernuda

E não só de forma triste, as palavras foram, para muitos, o único vínculo que lhes restava com o seu país de origem, e por isso mantiveram em suas linhas referências contínuas ao Estado espanhol e inclusive mantiveram suas próprias línguas, especialmente os catalães – uma vasta comunidade no México, que publicou dezenas de revistas e centenas de livros em catalão.

Com todo esse esforço, não apenas se integraram, mas acabaram se convertendo em protagonistas. Sua influência foi notável, por exemplo, na poesia. E não é para menos, pois aqui se exilou a maior parte da Geração de 27, com Cernuda como líder, e escritores renomados da de 98, como León Felipe. Tanto Cernuda quanto Felipe tocaram fundo. “León Felipe foi um escritor público. Seus recitais tinham a capacidade de convocatória dos grandes do México, as pessoas iam em multidão. Não ocorre o mesmo com poetas mais vanguardistas como Manuel Altolaguirre ou Concha Méndez”, conta De la Cruz, embora sua influência permeie por outras vias.

Além da poesia, do ensaio e do cinema, os exilados espanhóis revolucionam o mercado editorial. Sua incidência é determinante na concepção da revista literária, do campo editorial como mercado, das livrarias como ponto de encontro, das tertúlias em si mesmas…

Um autor quase desconhecido na Espanha que se destacou no México foi Juan Rejano. Pertencente à Geração de 27, além do seu extenso trabalho poético, já feito a bordo do Sinaia, Rejano editou numerosas revistas literárias, marcando a pauta das publicações vindouras e integrando a que seria a geração mexicana de 60.

Também quanto ao mercado editorial, dois espanhóis, Joaquín Díez Carnedo e Vicente Rojo, foram fundamentais. Em colaboração com editoras mexicanas, Rojo inclui pela primeira vez o design gráfico nos livros.

Jantar na casa de Joaquín Díez-Canedo com seu sócio Carlos Barral, Alí Chumacero, Joaquín Diez-Canedo, Fernando Benítez, Hero Rodríguez Toro e Huberto Batis, em 1963 (Ricardo Salazar/ Fototeca CNL-INBA)

Os exemplares ficam bonitos, o trabalho artístico é incorporado às capas. E Díez Carnedo, junto com Carlos Barral, fundou a editora Joaquín Mortiz, que sobrevive durante 30 anos de maneira independente. Nela publicam autores mexicanos de prestígio, e também talentos incipientes, além de recuperar os exilados espanhóis. Mas sobretudo traz ao México o conceito de livro de bolso. Edita a muito baixo custo, com traduções muito boas, acessíveis a todo mundo.

Definitivamente, a relação entre os intelectuais espanhóis e o México foi muito frutífera. Este país abriu a eles as portas que o nosso fechou e, ao mesmo tempo, eles o recompensaram engrandecendo o seu patrimônio cultural. E, como destaca De la Cruz, essa “é uma história que não termina”, pois perdura nos jovens exilados e nos filhos desses milhares de espanhóis que ficaram no México e continuam enriquecendo este país com a sua dupla identidade.

O filósofo Adolfo Sánchez Vázquez escreveu em seu livro ¡Exilio!, publicado no México em 1977: “o exílio é um rasgo que não termina de ser rasgado, uma ferida que não cicatriza, uma porta que parece se abrir e nunca se abre […] o exilado descobre com estupor, primeiro com dor, depois com certa ironia, mais tarde, no próprio momento em que seu exílio termina de forma objetiva, que o tempo não passou impunemente e que, tanto se volta quanto se não volta, jamais deixará de ser um exilado”.

Atestado de óbito

Autor: M. R. HALL
Tradutora: FLÁVIA SOUTO MAIOR
Editora: RECORD
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA

Recém-divorciada e viciada em antidepressivos, Jenny Cooper começa aos tropeços em seu novo emprego como investigadora forense. Em seu primeiro caso, ela se depara com a morte de adolescentes em centros de detenção juvenis, que aparentemente não estão relacionados mas que despertam suspeitas em Jenny. A morte de seu antecessor é mais um elemento estranho na história, fazendo com que ela mergulhe ainda mais fundo nas investigações.

(fonte: Editora Record)

El don’t

Neste vídeo, o humorista catalão Berto Romero ajuda a decifrar o manual de instruções de uma sanduicheira, supostamente traduzido para o espanhol.

“Os deuses são mais plurais que nós”

por Juan Luis Sánchez

tradução de Janaína Marcoantonio

leia aqui o artigo original em espanhol

Padre argentino participa de marcha em prol do casamento homossexual

Na memória, Paco Bello: um padre canário que colocou uma bandeira arco-íris em sua igreja

O sacerdote Nicolás Alessio, centro da polêmica (Foto: La Mañana de Córdoba)

O padre católico argentino Nicolás Alessio participou, na quinta-feira passada, de uma marcha a favor do casamento homossexual pelo centro da Córdoba de seu país. No momento dos discursos, tomou a palavra:

“Isso é diversidade. Isso é colorido. Isso é beleza. Isso é alegria. Fantástico. Primeiro, quero pedir perdão por pertencer a uma instituição que não termina de se converter ao evangelho de Jesus, um Jesus que jamais condenou a homossexualidade e jamais condenou o casamento homossexual, e sim aos soberbos, aos poderosos, aos que discriminam”

Nicolas Alessio termina com uma reflexão: “os deuses são mais plurais que nós; são um arco-íris de diversidade.” São 8 minutos que desafiam a autoridade da Igreja Católica, concretamente a do chefe direto de Alessio, o arcebispo Carlos José Ñáñez, que já não sabe como manter essa ovelha desgarrada dentro do rebanho. Nos portais de informação católica, acusam-no de “indigno para exercer o sacerdócio” e conclamam a juntar assinaturas para que o Monsenhor Ñañez faça algo. “Os Kirchner e companhia estão empenhados em seguir os passos de Zapatero no caminho da engenharia social e pode ser que consigam que o casamento entre homossexuais seja uma realidade”, diz o mesmo crítico, referindo-se ao processo de legalização das uniões do mesmo sexo que acontece na Argentina.

Na Argentina, a Federação de Gays, Lésbicas e Transexuais conseguiu “a adesão de cerca de 17 sacerdotes católicos e algumas congregações religiosas de monjas”, conta Marcelo Márquez, que trabalha em assuntos religiosos para essa organização e com quem trocamos alguns e-mails.

Na Espanha, a bandeira arco-íris de Paco Bello

Na Espanha, é difícil encontrar na hierarquia católica um caso como o de Nicolás Alessio, e menos ainda durante o processo de legalização do casamento gay de 2005. A maioria dos religiosos que apóiam a igualdade das uniões pertencem a coletivos de cristãos de base. Mas há pessoas que lutam e deixam sua marca.

Um deles, Paco Bello, o padre canário que colocou a bandeira arco-íris em sua igreja no Dia do Orgulho Gay.

Igreja de La Garita, em Grã-Canária, presidida pela bandeira arco-íris no Dia do Orgulho Gay, 28 de junho, de 2008. (Foto: teldeactualidad.com)

Morreu no último 22 de novembro em Telde, Grã-Canária, onde oficiava nas paróquias de La Garita e Marpequeña. “É possível que para algumas pessoas esse nome não quer diz nada, mas para os crentes gays, lésbicas, transexuais e bissexuais significa  muito”, dizem os que lhe fazem homenagem, e recordam um momento especial: num domingo de Quaresma, Paco quis apresentar aos fieis de sua paróquia o grupo canário de crentes homossexuais. “Que grande surpresa nos deu”, recordam em seu blog o grupo de crentes homossexuais e transexuais de Grã-Canária, “quando, recém-começada a celebração, anuncia a toda a assembléia, com uma astúcia tipicamente canária, que esse sábado na missa se encontrava um grupo de ‘maricões e sapatonas’ (literalmente) que eram católicos. Ele conhecia muito bem a sua gente e sabia que ao nos apresentar com estas palavras removeria suas consciências e os prepararia para quando tomássemos a palavra; palavra que nos cedeu no meio do sermão. Não acreditávamos no que estávamos vivendo. A reação das pessoas que estavam na igreja foi maravilhosa.”

Em Cristianosgays.com também lamentam a morte recente, esta mesma semana, de José María Díez-Alegría, jesuíta e teólogo quase sempre critico com o Vaticano, que dedicou grande parte de sua vida a viver e reconstruir socialmente alguns bairros pobres de Madri que hoje não há quem não reconheça. O também teólogo Juan José Tamayo escreve sobre ele que “contribuiu para desdogmatizar e humanizar ambos os sistemas de crenças [o marxismo e o cristianismo], construiu pontes e buscou lugares de encontro”.

Dar voltas em uma mafumeira

de Guillermo Cabrera Infante

tradução de Mariana Marcoantonio

Não sei que raio deu nessa mulher. Está aí dando voltas nessa árvore feito um cavalinho de carrossel, sem falar nada, só dando voltas e mais voltas. Ela me cansa. Está sempre com sua artimanha e sua baboseira e sua invencionice. Acreditando nesse lixo todo. Ah, não. Para cima de mim, não. Já disse a ela que aí eu não entro. Olhem como eles estão: parecem abobados. Eu que não entro nessa. Deixei isso bem claro hoje de manhã, quando ela acordou com essa bobagem metida na cabeça.

A culpa não é dela, é daquelazinha que acabou de se mudar para a pensão e teve que vir parar justo no quarto ao lado. Ela passa o dia todo enfiada na nossa casa lhe dizendo irmã faça isso, irmã faça aquilo, irmã faça não sei o quê. Eu quero ver se no fim do mês, quando vierem cobrar o aluguel, ela vai querer que nós o paguemos em troca dos conselhos que dá à minha mulher todo santo dia. Essa encheção de agora é coisa dela. Certeza absoluta. Aposto cem pesos contra uma bituca de cigarro que foi ela quem meteu isso na cabeça dessa idiota da minha mulher que acredita em tudo.

Está aí me fazendo sinais. Mas o seu braço pode cair de tanto gesticular que eu não vou para lá. Fico sentado aqui onde estou e pronto. Se não fosse porque não pode falar já estaria me chamando aos berros. Agora tem de se conformar em fazer gestos a manhã inteira ou até que o sol frite essa sua mãozinha e ela caia tostada no chão. Tão escandalosa. Tudo para ela é confusão. Esta manhã me deu um tremendo susto porque me acordou fazendo caretas e deixando os olhos brancos e dizendo rucurrucu como se tivesse um gole d’água na boca e não pudesse falar. Eu ainda estava meio dormindo e o que é que penso: que ela está tendo um troço e me levanto de um salto e começo a sacudi-la pelos ombros. Já lhe deu, digo a mim mesmo. Porque ela tem o pai internado no Mazorra há uns dez anos e uma irmã dela ateou fogo em si mesma e tem outra irmã que nasceu assim, toda torta e tudo isso, e eu penso que ela também ficou abobada. Quando ela consegue se soltar vai até a mesa e pega um papelzinho que tem ali preparadinho e tudo e me mostra. Tóbal, diz o recadinho, lembra que oje é o dia. A colônia com K te dezeja felissidade. Me desculpa por não falar com você no dia do teu santo. Veste aguayabera branca, a calça branca e os sapatos de duas cores que vamos ao templo. Te amo. Clodo. Bom, o que sei é que essa fulana enfiou na cabeça dela isso de ir ao Templo e dar voltas na mafumeira que tem ali. Agora, na minha cabeça, não tem quem enfie nada disso. Não, senhor. Nananão, com sua ziquizira e tudo, como dizia o Padrinho. Aí eu NÃO entro.

Está aí me chamando tão apressadinha quanto esta manhã, que logo que clareou já estava me acordando. A colônia com K te deseja felicidades! As coisas que enfiam na cabeça dessa mulher. Bom, vamos ver, como era meu aniversário bem que podia me deixar dormir de manhã, já que nem aos domingos se pode descansar em paz sem que venha uma desgraça dessas que estragam o dia.

Agora, o que eu fiz foi tomar meu café com leite bem tranquilo, bem confortável, o rádio ligado, ouvindo o velho Dom Carlos, o Mestre Gardel, arrasar no tango pela manhã. Depois ouvi meu par de boas milongas e fumei dois cigarros seguidos. E ela a escrever papeizinhos e mais papeizinhos. Parecia que uma funcionária do censo tinha aparecido na pensão. Tóbal se apressa por favor. Já nem os assinava. Nos últimos eu já estava a ponto de estourar. Por muito pouco não a faço falar! Cristóbal pela alma da sua mãe Tomasa se apressa. Acontece que fiquei com pena dela, que apesar de tudo é uma negra muito boazinha e muito solícita e peguei e me levantei. Agora, isso sim, me levantei com toda a minha santa calma e me vesti bem (bem devagarinho) sem pressa. Depois desci as escadas muito senhoraço e acendi outro cigarrinho na rua e fui até a esquina para tomar um cafezinho barato. Um veneno! É uma desgraça isso de que a vendinha da rua Inquisidor não abra aos domingos e a gente tenha que caminhar até o cais da Luz se quiser tomar um bom café. Mijo de macaco foi o que eu tomei. Tive que enxaguar a boca com água na frente do cara que vende o café e tudo. Depois, bem devagarinho, viemos para o Templo.

No caminho, cada vez que Clodo se encontrava com um conhecido ou uma amiga ou um parente (porque essa mulher tem mais família do que se seu sobrenome fosse Valdés), tinha que vê-la cumprimentando com a cabeça, assim, abaixando-a, como se fosse uma duquesa russa ou algo do tipo, sem nunca dizer nem uma palavra. Como eu teria gostado se tivéssemos que ter ido de ônibus! Mas ela é muito esperta e me levou caminhando pela rua San Innasio de forma que não precisasse encontrar essas amigas da Inquisidor e da Lamparilla, que são umas seis mil negrinhas e todas são costureiras e todinhas, todinhas usam espelhinhos e estão sempre revistando todos que passam com seus vinte e quatro mil olhos.

Quando chegamos à Praça de Armas aquilo já estava cheio de gente e até a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy e tudo celebrando o dia de San Cristóbal, e por isso precisamos nos enfiar entre a multidão e nos espremer até a grade do Templo. E até aí chegou o meu amor.

Eu me recusei totalmente a entrar e então ela se pôs a me puxar por um braço e depois por uma manga, até que finalmente ficou fazendo assim com a mão e me afastei dali como um cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi atrás do bombardino e da batuta de Gonzalo Roy e do ruído tremendo que a banda fazia enquanto tocavam o hino invasor. Vi, depois, quando ela se pôs em coro ao redor da mafumeira com toda essa outra gente na cabeça de quem aquelazinha que vive no quarto ao lado deve ter enfiado essa ideia de que se você dá a volta na árvore cerca de um milhão de vezes sem falar nem meia palavra, nem um suspiro e vai pedindo uma coisa até que rezem a missa, a árvore ou o Templo ou o padre que depois benzia o tronco com seus sermões ou Gonzalo Roy ou Deus a concedem. E assim você pode ver as mulheres e alguns homens também, não duvide, que há de tudo no jardim, dando a volta na árvore, caladinhos mas pedindo, pedindo, pedindo.

Aí está ela, Clodo Pérez, minha mulher, tão cabeçuda, ainda dando a volta no tronco. Porque isso já não é uma mafumeira nem meia mafumeira seca como está. Como a própria árvore não se faz um milagre e faz nascer folhas de novo? Clodo vai dizer que é porque a árvore não pode dar a volta nela mesma, certeza, e pedindo seu milagrinho. Todo mundo já foi para casa e os da orquestra se foram e Gonzalo Roy a esta hora deve estar dormindo a sesta porque passou a manhã inteira dirigindo a banda como se estivesse morto de sono, e assim deve estar sonhando que vem uma mulata muito animada e lhe diz Cecilia Valdés me chamo. E eu estou aqui fumando meu cigarrinho número noventa e nove e observando como minha mulher engole essa merda milagrosa. Fumando espero Clodomira Pérez. Está aí me chamando outra vez e dizendo por sinais, como o telegrafista do Morro, para eu também ir ao carrossel da mafumeira. Eu.

Fumar é um prazer, sensual, ideal, ritual.

Mas pensando melhor irei. Eu não acredito em nada disso, mas irei e me porei a dar volta na arvorezinha e tudo. Ela vai ficar muito contente e vai acreditar que estou na dela. A coitadinha: ela me vendo aqui só sentadinho na sombra, me resguardando do sol, fumando tranquilo meu cigarro cem. Com certeza acredita que eu não abri a boca a manhã inteira, que não disse nem uma palavra. Vou lhe tirar uma ilusão? Darei eu também a minha volta boba na mafumeira.

Imagem: La Ceiba Gráfica

FIM

*Terceiro lugar na primeira edição do Prêmio Novos Tradutores, na categoria de Melhor Tradução em Língua Espanhola, realizado pelo programa de Pós-graduação em Tradução da Universidade Gama Filho (RJ).

Título original em espanhol: Darle vueltas a una ceiba

“Quem tem muito precisa de mais para ser feliz”

por Jessica Romero

tradução de Mariana Marcoantonio

leia aqui o artigo original em espanhol

Entrevistamos Álvaro Neil, o Biciclown que há cinco anos viaja pelo mundo para fazer rir os mais humildes

Percorreu quase 80 mil quilômetros em cerca de 2.020 dias de viagem

Em 2004, de terras asturianas, um ex-tabelião saiu com a casa nas costas com o objetivo de fazer o mundo rir. Não era a primeira vez: em 2001, Álvaro Neil se tornou o Biciclown e percorreu a América Latina durante três anos, passando por vários países montado em uma bicicleta. Viciou-se no riso, em viver com o mínimo e em viajar. Quando voltou, começou a planejar seu projeto seguinte: Miles of smile around the world (MOSAW), dez anos de viagem, nos quais daria a volta ao mundo com o objetivo de “oferecer gratuitamente seu espetáculo de clown às pessoas mais humildes”.

O Biciclown durante uma atuação na Tanzânia

Saiu da Espanha há cinco anos e “se passarão pelo menos outros tantos antes de retornar”, diz. Álvaro pedala cerca de cem quilômetros por dia; ao fim do mês, uns 1.500, que faz sozinho. Vez ou outra encontra companheiros de viagem: “se eu como, ele ou ela também comerá”, diz em seu site.

Viaja por todo o mundo de bicicleta, atravessa montanhas, desertos e cidades, e, ainda assim, consegue estar hiperconectado. “Há internet por todos os lados. Paro uma ou duas vezes por dia para atualizar o site e responder e-mails”. Agora mesmo, mantém tanto Biciclown, com abundante material gráfico e audiovisual, quanto o espaço do documentário Biciclown, a la velocidade de las mariposas, que realizou com Filmina Docs. Além disso, graças a esse site pode também vender os livros que escreveu e que servem para financiar a rota.

Nos próximos seis meses, estará fazendo rir a gente humilde da China e ainda lhe restam quatro anos, ou mais, reconhece, para continuar presenteando a arte do palhaço. Leva nas costas quase 80 mil quilômetros, e defende o que faz apesar daqueles que o tacham de louco.

PERGUNTA: O que te levou a começar o MOSAW? Você o faz por compromisso, solidariedade ou aventura?

ÁLVARO NEIL: Quando terminei meu projeto Kilómetros de Sonrisas en Sudamérica (2001-2003) – durante o qual percorri de bicicleta, sozinho, dez países e ofereci 49 espetáculos gratuitos de clown –, queria mais. O corpo tinha se acostumado a essa vida nômade e o mapa-múndi me chamava em cada parede que o via pendurado. O projeto MOSAW (2004-2014) é a minha vida. Uma vida de aventura na qual o palhaço vai presenteando a sua arte ali onde ela é necessária. É um compromisso com a minha consciência.

P: Por que você empreende esse projeto tão longo no tempo (dez anos), com tantos quilômetros sozinho?

A. N.: Não acredito que se possa dar a volta ao mundo de bicicleta em cinco anos. Mesmo havendo gente que fez isso e que não colocou as rodas na África. O mundo é muito grande e, de bicicleta, você viaja à velocidade das borboletas. Meu plano inicial era de dez anos, mas não acredito, afortunadamente, que o cumpra. Serão mais anos.

P: Você está desde 2004 montado em uma bicicleta percorrendo o mundo, por onde tem visto pobreza e fome. Deve ser duro não perder o sorriso nem a vontade.

A. N.: A pobreza e a fome não me fazem perder o sorriso. Mas quando você oferece o seu projeto por e-mail à Embaixada da Espanha no Vietnã e um funcionário responde, sem assinar a resposta, que, sendo uma iniciativa privada, eles não têm por que me facilitar contatos no país para que eu atue, grátis, o sorriso congela e dá vontade de…

P: Sobre a produção das suas viagens, imagino que a improvisação impera. Mas como você consegue realizar espetáculos, palestras… você está em contato prévio com algum tipo de organização local?

A. N.: Pura improvisação. Às vezes alguém que lê meu site tem um parente num país que vou percorrer e me facilita contatos, outras vezes a Embaixada do meu país tem interesse em organizar algum espetáculo ou conferência; até agora, levei 54 espetáculos para mais de 18 mil pessoas.

P: Como você decide a sua rota? Ao viajar de um país a outro, é preciso acertar papéis com embaixadas e todo o resto, algo que toma muito tempo.

A. N.: Planejar é parte da viagem. Assim como responder a esta entrevista, ou catalogar as fotos que tiro, ou lavar minha roupa à mão. A rota vai saindo sem querer. Um país te nega um visto e você já sabe que terá que visitar o vizinho do lado. O inverno ou as monções podem fazer com que você tenha que dar algumas voltas de milhares de quilômetros. É parte da graça desta vida.

P: Você tem patrocinadores, o projeto está aberto a colaborações cidadãs, os livros, o documentário… não sei se o financiamento alcança para cobrir o projeto, a rota…

A. N.: Este projeto é financiado em 60% com o meu dinheiro, 20% com patrocinadores que me dão parte do material, e os 20% restantes com o dinheiro que eu vou encontrando pelo caminho, como, por exemplo, a venda dos meus livros ou dos meus DVDs ou gente que deposita alguns euros na minha conta da Caixa. Sem meus amigos, sem as pessoas que difundem este projeto e o meu site, seria impossível.

Álvaro Neil em sua passagem por Istambul

P: Além de fazer a rota para provocar o riso com os seus espetáculos, você leva dinheiro a algumas comunidades ou organizações locais?

A. N.: Quando conheço projetos locais dignos de interesse, comento em meus escritos no site. Depois, os leitores se organizam e ajudam. Foi assim que enviaram remédios a um hospital do Congo ou de Gabão. Mas não quero que os meus espetáculos envolvam dinheiro. São sempre gratuitos porque se dirigem a setores desfavorecidos da população.

P: O que você acha que falta para nós, que vivemos na sociedade do bem-estar, que você vê nessas zonas tão pobres que visita?

A. N.: Ilusão, capacidade de surpresa, de valorizar o presente sem pensar tanto no amanhã. Quem não tem nada desfruta com muito pouco. Quem tem muito precisa de mais para ser feliz. É pura matemática social.

P: Você nota diferenças de uma zona a outra, de um país ou continente a outro, na hora de rir, de reagir aos seus espetáculos?

A. N.: Claro. Nem todo mundo ri das mesmas coisas. Nos países árabes sempre me custa mais, porque são sociedades mais rígidas e a magia que eu faço, embora seja com senso de humor, nem sempre é bem vista.

P: Suponho que será complicado eleger um momento, uma história para destacar.

A. N.: Para mim, cada dia tem as suas histórias. Agora mesmo recebi um e-mail de uma pessoa que não conheço e que com 17 anos me diz o seguinte. Acho que suas reflexões são muito especiais.

“Simplesmente fiquei surpreendido com o que você faz. Durante toda a minha vida tenho buscado preencher esse vazio que tinha nos meus sonhos. Definitivamente, quero fazer o que você faz. Sempre amei dar alegria às pessoas, sorrir um pouco; pois acho que a felicidade é o objetivo do ser humano, e essa felicidade a gente consegue quando faz o que ama. Se somos felizes, faremos felizes aos demais e o carma se encarregará do resto. Tenho 17 anos, quase 18. Sei que você vai pensar que talvez eu esteja sonhando muito, mas sei que o seu projeto precisou de uma organização exaustiva, dedicação, esforço, economia e muita valentia para ser realizado. De todo modo, quero viver assim. Encontro na sua vida a melhor forma de viver, as melhores comodidades e um amor puro. Gostaria que você me desse alguns conselhos para fazer bem o que você faz. Vou estudar Comunicação, e tenho muita vontade de, em alguns anos, começar uma viagem como a sua, pouco a pouco, à velocidade das borboletas. Muito obrigada, meu irmão”

P: Você alguma vez pensou em abandonar o projeto?

A. N.: Este projeto é a minha vida. Abandoná-lo é como me jogar de uma ponte. Não tenho aonde ir além de aonde os meus sonhos me levam. O caminho fácil não me interessa.

P: Como pode ser um dia-a-dia do Biciclown?

A. N.: Cada dia é diferente. Ainda que pedale cinco dias no deserto, um dia é diferente do outro. O vento, as pessoas o fazem diferente. Pedalo de sol a sol, consigo algo de comida e procuro onde dormir. Satisfaço minhas necessidades básicas com pouco dinheiro e encho o meu coração de experiências impagáveis.

P: O que pode acontecer com a sua vida, uma vez finalizado o MOSAW?

A. N.: Se o soubesse, ficaria deprimido. Aprendi a viver na incerteza e a desfrutar dela. Para alguns, a incerteza é insegurança; para mim, é emoção.

Pagar com tempo

por Lydia Molina
tradução de Janaína Marcoantonio
leia aqui o artigo original em espanhol

Os bancos do tempo são um sistema de intercâmbio de serviços por tempo
Converteram-se em uma via para a integração social dos imigrantes
“Se preciso ir ao médico, mas não tenho com quem deixar meu filho, chamo as usuárias do te
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Cartaz do Banco de Tempo de Pinoso

Sua persiana quebrou ou você acabou de chegar à Espanha e precisa praticar o idioma. A solução costuma custar dinheiro, mas há quem economize euros pagando com horas. Os bancos do tempo não são um fenômeno novo. De fato, têm-se espalhado por toda a geografia espanhola. O mecanismo é muito simples: uma pessoa oferece para ensinar alguma habilidade ou resolver um problema e, em troca, os outros a ajudam em algo que necessite. A gestão é a de um banco convencional, só que sem euros. O usuário abre uma conta corrente de tempo, à qual vai somando ou subtraindo horas em função dos serviços que dê ou receba. A forma de pagamento é um cheque por cada hora de trabalho.

Gloria Córdoba se oferece como acompanhante para visitas ao médico, para o cuidado dos filhos, para dar aulas de informática e para resolver assuntos domésticos em geral, como trocar uma lâmpada ou mover uma estante. Entrou no Banco do Tempo do Centro Europeu de Estudos sobre Fluxos Migratórios (Cemigras) de Las Palmas há seis meses. “Se tenho que sair para ir ao banco ou ao médico durante duas ou três horas, mas não tenho com quem deixar meu filho, chamo as usuárias do tempo. Agora estou tramitando o certificado de invalidez de meu filho e estava enrolada com os documentos que precisava apresentar, pedi ajuda e estão me assessorando com a documentação.” Glória é colombiana e chegou à Espanha há quase dois anos.

Além de lhe oferecer esses serviços, o Banco a tem ajudado em sua integração. “Aqui na Europa, as relações com o vizinho não são como no meu país, em que você faz amizade com a pessoa ao lado. Aqui é mais formal. O Banco me ajuda a conhecer gente. Não só outras colombianas, também há peruanas, bolivianas, chilenas, brasileiras, tem gente de toda a parte.” Noventa por cento dos usuários do Banco do Cemigras são estrangeiros.

“É uma via para a integração social, porque temos em um mesmo balaio espanhóis e imigrantes. Empenhamo-nos para que haja diversidade. Com o Banco, temos disponível um observatório privilegiado para conhecer os problemas daqueles que vêm de fora”, conta Manuel Ferrer, coordenador geral do Centro Europeu de Estudos sobre Fluxos Migratórios (Cemigras). Lá, os serviços mais solicitados são os relacionados com o aprendizado de informática, culinária e idiomas. “Isso é algo pontual. Não se trata de um curso intensivo, e sim de classes pontuais ao filho antes de uma prova, imigrantes que querem praticar espanhol de vez em quando ou gente que quer viajar para o exterior e pode se beneficiar com uma aula de inglês, por exemplo.”

O Banco do Tempo de Cemigras ainda é jovem. Nasceu no verão do ano passado e tem 50 usuários. Mas há também bancos veteranos, como a Associação de Saúde e Família, que começou a trabalhar em 1998 e já conta com uma rede de bancos por toda a Espanha. “Quando começou, o perfil era de mulheres de meia idade que solicitavam serviços domésticos, mas hoje 35% são homens, e há um setor de estudantes universitários que está entrando em massa. São gente jovem que participa de plataformas a favor do decrescimento ou que trabalha em temas de meio ambiente e consumo responsável. O perfil se ampliou, assim como os campos de ação”, assegura Josefina Altés, coordenadora da rede de Bancos do Tempo dessa organização.

O intercâmbio de serviços atravessou fronteiras. “A incorporação das novas tecnologias e a capacidade de nos conectarmos com outros países aumenta a variedade de nossos intercâmbios. Temos um convênio de colaboração com uma rede italiana. Se um usuário diz que precisa ir a Milão, alguém do banco de lá pode lhe oferecer alojamento. Esse usuário italiano depois pode vir a Barcelona e ficar na casa de um usuário do banco do tempo daqui, ou então lhe dão seis horas de tempo no banco da Itália por ter recebido essa pessoa em sua casa”, conta Atlés.

Elisabeth Casanova tem problemas de visão e participa do banco há seis anos. Ela “compra” leitura. “Vejo muito borrado. Posso andar sozinha pela rua ou atravessar um semáforo, mas ler é muito difícil para mim. Por isso, peço que venham ler alguns artigos ou documentos. Uma vez, fiquei hospitalizada, e quando saí pedi alguém para buscar meus remédios; outra vez consertaram a porta de um móvel que caiu e uma luminária que tinha uma lâmpada queimada”. Tarefas domésticas que para Elisabeth demandavam muito esforço.

Os serviços mais solicitados dependem da zona em que esteja o banco do tempo. Os bairros com altos índices de população imigrante costumam ter muita demanda de prática de espanhol ou conhecimento dos arredores. “Para os imigrantes, é um ponto de referência, em que recebem, mas também dão muito. Além do resto dos serviços, eles ensinam seu idioma, seus costumes ou a cozinhar, entre outras coisas. É mais uma parte do processo de inclusão social”, afirma Josefina Altés. Não há desculpas, aprender a fazer cuscuz é questão de tempo.

Exemplo de um modelo de cheque de tempo (ONG Azuopolis)