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Era uma vez… o mundo

by em outubro 15, 2010

por Lydia Molina 

tradução de Flávia Souto Maior

Leia aqui o artigo original em espanhol

 

Crianças com desenhos de outros países

 

Luna percorreu meio mundo em uma bolha. É sevilhana, tem doze anos, mas não é real. Seu rosto, seu corpo e seu jeito de ser foram inventados por um grupo de crianças de Mairena del Aljarafe. Ali, surgiu há dois anos a semente de Bolhas de Ilusão, um projeto da Associação de Vizinhos de Casco, em Sevilha, pelo qual mais de 250 crianças viajaram, através de um conto, pela Guatemala, Argentina, Colômbia, México, Palestina, Paquistão e Bangladesh.  “Fizemos tudo com um computador, uma caixa de lápis e um montão de folhas”, conta Manolo Moreno, um de seus criadores.

Manolo é educador, e a ideia surgiu um dia em que conversava com seu amigo Sayid, professor em Tânger, raiz dos atentados de 11 de março de 2004 em Madri. “A mídia começou a mostrar uma imagem ruim da cultura islâmica. Quisemos fazer alguma coisa e sabemos que a melhor maneira seria por meio das crianças”. A primeira fase se chamou “Um mundo de cores”. Mas a expansão do projeto veio há dois anos, quando começaram a montar “Bolhas de ilusão”.  Os garotos com idades entre onze e catorze anos recebem o “era uma vez”, o início de um conto, e a partir daí  é a sua imaginação que constrói a história, a origem de suas tradições, suas experiências e seu próprio entorno. Os relatos e desenhos são mostrados a todos até que se chegue a um consenso. De cada país sai um personagem e uma história que é compartilhada com o resto pela internet. “Eles se surpreendiam muito com a forma de se falar espanhol na América Latina, com as comidas, as paisagens. Foi muito estimulante”. Estimulante, mas não fácil. “Somos uma associação de vizinhos, e por isso temos recursos muito limitados. Imagine como é conciliar pessoas do Paquistão e da Argentina, com fusos horários tão diferentes. Custou-nos muitas noites sem dormir”, diz ele, com orgulho. Além disso, o projeto ficou quatro meses parado devido ao ataque a Gaza, o fechamento dos colégios no México, Guatemala e Argentina por causa da gripe A, e o conflito entre o talibã e o exército paquistanês. “O coordenador tinha que passar pela zona afetada, e arriscava a vida para levar informações sobre o conto”, lembra Manolo, que apesar de tudo,  vendo o resultado do projeto, fala com humor dos problemas de internet. “Era mais fácil que ele viesse a pé do Paquistão trazer os contos do que chegarem pelo correio. No Paquistão, a internet ainda está muito devagar. Na Guatemala a professora ia com a torre do computador nas costas, porque não tinha um portátil para mostrar aos alunos o que era mandado dos outros países. Ah, a exclusão digital!”

Mas a melhor  forma de entender Bolhas de Ilusão é ver diretamente os desenhos e comparar a Luna espanhola com o Gaucho Martín da Argentina, ou o Amin de Marrocos.  Ou as ruas de Mairena del Aljarafe às de Currulao, na Colômbia, ou El Zócalo, no México.

Em Sevilha, decidiram que a história começava em um sonho de Luna, e ela é levada pelo centro histórico de Mairena del Aljarafe, vai ao cinema, à antiga Expo de Sevilha, e depois vai comer no “Mudo”, como é conhecido carinhosamente o dono de um restaurante da região, “onde se comem os melhores camarões do mundo”, diz Manolo. “O homem é surdo-mudo, estivemos com ele e as crianças explicaram o projeto e o que queriam fazer. O homem ficou muito emocionado”

A história de Luna e dos outros nove personagens do resto dos países participantes que a acompanharam na viagem uniram-se em uma só. Todos percorrem o mundo em uma bolha e descem em cada povoado ou cidade. Visitam as festas do México, as ruínas de Gaza, ou a mesquita de Tânger. Esse é o conto Bolhas de Ilusão, um livro que conseguiram publicar em três idiomas – espanhol, árabe e inglês –  e tem distribuição gratuita.

O projeto foi possível graças a um financiamento, pois a associação não conta com recursos para tal.  “Recebemos uma carta da ONU nos parabenizando pelo projeto, e isso nos abriu muitas portas”.  O projeto, do qual participaram 258 meninos e meninas, 24 educadores e 50 voluntários, terminou em dezembro com um encontro internacional ao qual se juntaram professore e representantes de cada grupo de crianças. “Isso sim é uma união de civilizações”, conta Manolo. Eles ganharam o V Prêmio Certamen Iniciativa Solidária, organizado pela ONG Jóvenes y Desarrollo. Já preparam um novo projeto do qual não podem dar muitos detalhes, mas sabemos que a ideia é conectar as crianças por meio dos jogos tradicionais de cada país.

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