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Os exilados espanhóis que revolucionaram as letras mexicanas

by em julho 12, 2010

por Majo Siscar (México, D.F.)

tradução de Mariana Marcoantonio

Leia aqui o artigo original em espanhol

México recupera o legado dos intelectuais republicanos que acolheu

Luis Cernuda, León Felipe e Max Aub são alguns dos renomados escritores que mais influenciaram o acervo cultural local

O vento do Atlântico batia em suas caras, em suas nostalgias e na coragem de seus ideais. Maio de 1939 terminava e 1.600 espanhóis partiam da França para o México a bordo do barco Sinaia, fugindo dos horrores da guerra, da perseguição do franquismo e dos campos de concentração franceses. Para trás, deixavam os sonhos perdidos de um país melhor e, no horizonte, desenhava-se a esperança de refazer sua vida, num lugar onde eram bem recebidos e compartilhavam o idioma. Assim, no pequeno diário de bordo do poeta da Geração de 27, Juan Rejano, entre outros, aparece este poema:

Que fio tão fino, que delgado junco
– de aço fiel – nos une e nos separa
com Espanha presente na memória
com México presente na esperança.
[…]
Como em outro tempo, pelo mar salgado
te encontra um rio espanhol de sangue vermelho
de generoso sangue transbordado…
Mas és tu, agora, quem nos conquista
e para sempre, oh, velha e Nova Espanha!”

Fragmento do poema “Entre Espanha e México”, de Pedro Garfias

Fernando Gamboa e sua irmã Susana a bordo do Sinaia. Fundo de Promoção Cultural Fernando Gamboa

Em 14 de junho, chegaram ao porto de Veracruz. Foram a primeira leva de exilados republicanos no México. Ao Sinaia, seguiram os barcos Ipanema, com quase mil exilados, e Mexique, com mais de dois mil, e assim, sucessivamente, foram chegando ao México concidadãos de todas as classes sociais até princípios de 1950, quando já havia mais de 25 mil espanhóis vivendo no país. Esse foi o Estado que acolheu mais republicanos. O presidente Lázaro Cárdenas tinha apoiado a República com veemência e, uma vez derrotado, concedeu asilo político aos seus partidários, favorecendo especialmente a integração dos intelectuais na vida cultural mexicana.

Luis Cernuda, Max Aub, León Felipe, Juan Rejano, Joaquim Xirau, María Zambrano, José Gaos, Pedro Garfias, María Luisa Algarra e Luis Buñuel são alguns dos escritores, filósofos e cineastas que, repudiados e ignorados pelo franquismo, enriqueceram o acervo cultural mexicano. “Sua herança é tão importante que me atrevo a dizer que é o acontecimento cultural mais importante do México na segunda metade do século XX”, destaca Gerardo de la Cruz, subdiretor de Documentação e Publicações da Coordenação Nacional de Literatura do Instituto Nacional de Belas Artes (INBA), curador da exposição Si me quieres escribir… autores del exilio, em cartaz na Biblioteca do México até dia 15 de agosto.

São numerosas as exposições, simpósios e outras homenagens que o México oferece aos exilados espanhóis que enriqueceram esse país.

A exposição mostra “o olhar de um país enriquecido por essa geração de intelectuais e a influência da cultura mexicana em seu processo de criação”. Para tanto, reúne fotografias, retratos, livros, revistas, cartas, manuscritos e notas hemerográficas dos mais ilustres exilados e de seus filhos, os hispano-mexicanos. Estes, crescidos entre as lembranças de seus pais, criaram um forte laço com a Espanha, apesar de serem mexicanos, e suas criações envolvem essas duas identidades. A exposição é um dos numerosos reconhecimentos que o México tem dado a esses compatriotas que durante décadas foram silenciados na Espanha.

E o exílio espanhol no México não foi casual. Os laços remontam ao começo do século XX. Nas suas três primeiras décadas, Madri converte-se no refúgio de intelectuais mexicanos, nas idas e vindas da Revolução que assola este país. Além disso, a capital espanhola encontra-se em plena efervescência cultural e política, com a insígnia da Geração de 98 e o auge dos movimentos vanguardistas, suas publicações, cafés e tertúlias. Entre esses mexicanos exilados em Madri, destacam-se, na política, Martín Luis Guzmán – muito próximo do presidente Manuel Azaña – e, na cultura, Alfonso Reyes.

Ambos se converteram, junto com o pintor Fernando Gamboa, nos benfeitores do exílio espanhol no México ao terminar a Guerra Civil. “Há uma rede de amizades e projetos editoriais entre intelectuais de ambos os países estabelecida antes da guerra que favorece a integração posterior”, afirma De la Cruz. Ele cita a definição do filósofo José Gaos, natural de Gijón e exilado no México, que qualificava a si mesmo não como um exilado, mas como um transterrado, “transplantado a outra terra”, já que a história comum entre Espanha e México facilitou a integração, como se o novo país fosse uma extensão do desejo perdido.

Efraín Huerta, Max Aub e León Felipe. Fundação Max Aub

E, de fato, foi, pois, apesar de algumas invejas e muitas críticas de alguns intelectuais locais que viam seu status ameaçado, facilitou-se a sua incorporação a universidades e centros culturais. Suas ideias progressistas fortaleceram o panorama cultural mexicano, e alguns até fundaram revistas e editoras próprias. “Eles se integram completamente no México, à sua estrutura cultural e ao mercado editorial. Suas contribuições na política, na cultura, no cinema elevam o diálogo intelectual do México, que se abre para novas latitudes além do nacionalismo interno, e isso gera frutos em escritores locais, como José Emilio Pacheco, Fernando Benítez e o próprio Carlos Fuentes, que são muito próximos de Manuel Altolaguirre, Max Aub e Luis Buñuel, e bebem da sua influência”, explica De la Cruz.

No entanto, não foi um caminho fácil. Os espanhóis tiveram que trabalhar muito duro para superar os receios de alguns mexicanos e, como afirma De la Cruz, “conquistaram os seus lugares com o próprio esforço”. A maioria concebeu aqui [no México] a parte mais importante da sua obra, que obviamente se viu imbuída da voluptuosidade do novo país que estavam descobrindo. Ainda que a obsessão pela pátria perdida tenha permanecido sempre e isso se reflita em seus escritos, como ilustra o fragmento do poema “Um espanhol fala de sua terra”, do livro Las nubes, de Luis Cernuda:

Luis Cernuda, poeta sevilhano da Geração de 27; morreu no México, em 1963

Eles, os vencedores
caims sempiternos,
de tudo me arrancaram.
Me deixam o desterro.

Si el hombre pudiera decir, poema de Luis Cernuda

E não só de forma triste, as palavras foram, para muitos, o único vínculo que lhes restava com o seu país de origem, e por isso mantiveram em suas linhas referências contínuas ao Estado espanhol e inclusive mantiveram suas próprias línguas, especialmente os catalães – uma vasta comunidade no México, que publicou dezenas de revistas e centenas de livros em catalão.

Com todo esse esforço, não apenas se integraram, mas acabaram se convertendo em protagonistas. Sua influência foi notável, por exemplo, na poesia. E não é para menos, pois aqui se exilou a maior parte da Geração de 27, com Cernuda como líder, e escritores renomados da de 98, como León Felipe. Tanto Cernuda quanto Felipe tocaram fundo. “León Felipe foi um escritor público. Seus recitais tinham a capacidade de convocatória dos grandes do México, as pessoas iam em multidão. Não ocorre o mesmo com poetas mais vanguardistas como Manuel Altolaguirre ou Concha Méndez”, conta De la Cruz, embora sua influência permeie por outras vias.

Além da poesia, do ensaio e do cinema, os exilados espanhóis revolucionam o mercado editorial. Sua incidência é determinante na concepção da revista literária, do campo editorial como mercado, das livrarias como ponto de encontro, das tertúlias em si mesmas…

Um autor quase desconhecido na Espanha que se destacou no México foi Juan Rejano. Pertencente à Geração de 27, além do seu extenso trabalho poético, já feito a bordo do Sinaia, Rejano editou numerosas revistas literárias, marcando a pauta das publicações vindouras e integrando a que seria a geração mexicana de 60.

Também quanto ao mercado editorial, dois espanhóis, Joaquín Díez Carnedo e Vicente Rojo, foram fundamentais. Em colaboração com editoras mexicanas, Rojo inclui pela primeira vez o design gráfico nos livros.

Jantar na casa de Joaquín Díez-Canedo com seu sócio Carlos Barral, Alí Chumacero, Joaquín Diez-Canedo, Fernando Benítez, Hero Rodríguez Toro e Huberto Batis, em 1963 (Ricardo Salazar/ Fototeca CNL-INBA)

Os exemplares ficam bonitos, o trabalho artístico é incorporado às capas. E Díez Carnedo, junto com Carlos Barral, fundou a editora Joaquín Mortiz, que sobrevive durante 30 anos de maneira independente. Nela publicam autores mexicanos de prestígio, e também talentos incipientes, além de recuperar os exilados espanhóis. Mas sobretudo traz ao México o conceito de livro de bolso. Edita a muito baixo custo, com traduções muito boas, acessíveis a todo mundo.

Definitivamente, a relação entre os intelectuais espanhóis e o México foi muito frutífera. Este país abriu a eles as portas que o nosso fechou e, ao mesmo tempo, eles o recompensaram engrandecendo o seu patrimônio cultural. E, como destaca De la Cruz, essa “é uma história que não termina”, pois perdura nos jovens exilados e nos filhos desses milhares de espanhóis que ficaram no México e continuam enriquecendo este país com a sua dupla identidade.

O filósofo Adolfo Sánchez Vázquez escreveu em seu livro ¡Exilio!, publicado no México em 1977: “o exílio é um rasgo que não termina de ser rasgado, uma ferida que não cicatriza, uma porta que parece se abrir e nunca se abre […] o exilado descobre com estupor, primeiro com dor, depois com certa ironia, mais tarde, no próprio momento em que seu exílio termina de forma objetiva, que o tempo não passou impunemente e que, tanto se volta quanto se não volta, jamais deixará de ser um exilado”.

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