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Dar voltas em uma mafumeira

by em junho 30, 2010

de Guillermo Cabrera Infante

tradução de Mariana Marcoantonio

Não sei que raio deu nessa mulher. Está aí dando voltas nessa árvore feito um cavalinho de carrossel, sem falar nada, só dando voltas e mais voltas. Ela me cansa. Está sempre com sua artimanha e sua baboseira e sua invencionice. Acreditando nesse lixo todo. Ah, não. Para cima de mim, não. Já disse a ela que aí eu não entro. Olhem como eles estão: parecem abobados. Eu que não entro nessa. Deixei isso bem claro hoje de manhã, quando ela acordou com essa bobagem metida na cabeça.

A culpa não é dela, é daquelazinha que acabou de se mudar para a pensão e teve que vir parar justo no quarto ao lado. Ela passa o dia todo enfiada na nossa casa lhe dizendo irmã faça isso, irmã faça aquilo, irmã faça não sei o quê. Eu quero ver se no fim do mês, quando vierem cobrar o aluguel, ela vai querer que nós o paguemos em troca dos conselhos que dá à minha mulher todo santo dia. Essa encheção de agora é coisa dela. Certeza absoluta. Aposto cem pesos contra uma bituca de cigarro que foi ela quem meteu isso na cabeça dessa idiota da minha mulher que acredita em tudo.

Está aí me fazendo sinais. Mas o seu braço pode cair de tanto gesticular que eu não vou para lá. Fico sentado aqui onde estou e pronto. Se não fosse porque não pode falar já estaria me chamando aos berros. Agora tem de se conformar em fazer gestos a manhã inteira ou até que o sol frite essa sua mãozinha e ela caia tostada no chão. Tão escandalosa. Tudo para ela é confusão. Esta manhã me deu um tremendo susto porque me acordou fazendo caretas e deixando os olhos brancos e dizendo rucurrucu como se tivesse um gole d’água na boca e não pudesse falar. Eu ainda estava meio dormindo e o que é que penso: que ela está tendo um troço e me levanto de um salto e começo a sacudi-la pelos ombros. Já lhe deu, digo a mim mesmo. Porque ela tem o pai internado no Mazorra há uns dez anos e uma irmã dela ateou fogo em si mesma e tem outra irmã que nasceu assim, toda torta e tudo isso, e eu penso que ela também ficou abobada. Quando ela consegue se soltar vai até a mesa e pega um papelzinho que tem ali preparadinho e tudo e me mostra. Tóbal, diz o recadinho, lembra que oje é o dia. A colônia com K te dezeja felissidade. Me desculpa por não falar com você no dia do teu santo. Veste aguayabera branca, a calça branca e os sapatos de duas cores que vamos ao templo. Te amo. Clodo. Bom, o que sei é que essa fulana enfiou na cabeça dela isso de ir ao Templo e dar voltas na mafumeira que tem ali. Agora, na minha cabeça, não tem quem enfie nada disso. Não, senhor. Nananão, com sua ziquizira e tudo, como dizia o Padrinho. Aí eu NÃO entro.

Está aí me chamando tão apressadinha quanto esta manhã, que logo que clareou já estava me acordando. A colônia com K te deseja felicidades! As coisas que enfiam na cabeça dessa mulher. Bom, vamos ver, como era meu aniversário bem que podia me deixar dormir de manhã, já que nem aos domingos se pode descansar em paz sem que venha uma desgraça dessas que estragam o dia.

Agora, o que eu fiz foi tomar meu café com leite bem tranquilo, bem confortável, o rádio ligado, ouvindo o velho Dom Carlos, o Mestre Gardel, arrasar no tango pela manhã. Depois ouvi meu par de boas milongas e fumei dois cigarros seguidos. E ela a escrever papeizinhos e mais papeizinhos. Parecia que uma funcionária do censo tinha aparecido na pensão. Tóbal se apressa por favor. Já nem os assinava. Nos últimos eu já estava a ponto de estourar. Por muito pouco não a faço falar! Cristóbal pela alma da sua mãe Tomasa se apressa. Acontece que fiquei com pena dela, que apesar de tudo é uma negra muito boazinha e muito solícita e peguei e me levantei. Agora, isso sim, me levantei com toda a minha santa calma e me vesti bem (bem devagarinho) sem pressa. Depois desci as escadas muito senhoraço e acendi outro cigarrinho na rua e fui até a esquina para tomar um cafezinho barato. Um veneno! É uma desgraça isso de que a vendinha da rua Inquisidor não abra aos domingos e a gente tenha que caminhar até o cais da Luz se quiser tomar um bom café. Mijo de macaco foi o que eu tomei. Tive que enxaguar a boca com água na frente do cara que vende o café e tudo. Depois, bem devagarinho, viemos para o Templo.

No caminho, cada vez que Clodo se encontrava com um conhecido ou uma amiga ou um parente (porque essa mulher tem mais família do que se seu sobrenome fosse Valdés), tinha que vê-la cumprimentando com a cabeça, assim, abaixando-a, como se fosse uma duquesa russa ou algo do tipo, sem nunca dizer nem uma palavra. Como eu teria gostado se tivéssemos que ter ido de ônibus! Mas ela é muito esperta e me levou caminhando pela rua San Innasio de forma que não precisasse encontrar essas amigas da Inquisidor e da Lamparilla, que são umas seis mil negrinhas e todas são costureiras e todinhas, todinhas usam espelhinhos e estão sempre revistando todos que passam com seus vinte e quatro mil olhos.

Quando chegamos à Praça de Armas aquilo já estava cheio de gente e até a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy e tudo celebrando o dia de San Cristóbal, e por isso precisamos nos enfiar entre a multidão e nos espremer até a grade do Templo. E até aí chegou o meu amor.

Eu me recusei totalmente a entrar e então ela se pôs a me puxar por um braço e depois por uma manga, até que finalmente ficou fazendo assim com a mão e me afastei dali como um cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi atrás do bombardino e da batuta de Gonzalo Roy e do ruído tremendo que a banda fazia enquanto tocavam o hino invasor. Vi, depois, quando ela se pôs em coro ao redor da mafumeira com toda essa outra gente na cabeça de quem aquelazinha que vive no quarto ao lado deve ter enfiado essa ideia de que se você dá a volta na árvore cerca de um milhão de vezes sem falar nem meia palavra, nem um suspiro e vai pedindo uma coisa até que rezem a missa, a árvore ou o Templo ou o padre que depois benzia o tronco com seus sermões ou Gonzalo Roy ou Deus a concedem. E assim você pode ver as mulheres e alguns homens também, não duvide, que há de tudo no jardim, dando a volta na árvore, caladinhos mas pedindo, pedindo, pedindo.

Aí está ela, Clodo Pérez, minha mulher, tão cabeçuda, ainda dando a volta no tronco. Porque isso já não é uma mafumeira nem meia mafumeira seca como está. Como a própria árvore não se faz um milagre e faz nascer folhas de novo? Clodo vai dizer que é porque a árvore não pode dar a volta nela mesma, certeza, e pedindo seu milagrinho. Todo mundo já foi para casa e os da orquestra se foram e Gonzalo Roy a esta hora deve estar dormindo a sesta porque passou a manhã inteira dirigindo a banda como se estivesse morto de sono, e assim deve estar sonhando que vem uma mulata muito animada e lhe diz Cecilia Valdés me chamo. E eu estou aqui fumando meu cigarrinho número noventa e nove e observando como minha mulher engole essa merda milagrosa. Fumando espero Clodomira Pérez. Está aí me chamando outra vez e dizendo por sinais, como o telegrafista do Morro, para eu também ir ao carrossel da mafumeira. Eu.

Fumar é um prazer, sensual, ideal, ritual.

Mas pensando melhor irei. Eu não acredito em nada disso, mas irei e me porei a dar volta na arvorezinha e tudo. Ela vai ficar muito contente e vai acreditar que estou na dela. A coitadinha: ela me vendo aqui só sentadinho na sombra, me resguardando do sol, fumando tranquilo meu cigarro cem. Com certeza acredita que eu não abri a boca a manhã inteira, que não disse nem uma palavra. Vou lhe tirar uma ilusão? Darei eu também a minha volta boba na mafumeira.

Imagem: La Ceiba Gráfica

FIM

*Terceiro lugar na primeira edição do Prêmio Novos Tradutores, na categoria de Melhor Tradução em Língua Espanhola, realizado pelo programa de Pós-graduação em Tradução da Universidade Gama Filho (RJ).

Título original em espanhol: Darle vueltas a una ceiba

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