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“Quem tem muito precisa de mais para ser feliz”

by em junho 29, 2010

por Jessica Romero

tradução de Mariana Marcoantonio

leia aqui o artigo original em espanhol

Entrevistamos Álvaro Neil, o Biciclown que há cinco anos viaja pelo mundo para fazer rir os mais humildes

Percorreu quase 80 mil quilômetros em cerca de 2.020 dias de viagem

Em 2004, de terras asturianas, um ex-tabelião saiu com a casa nas costas com o objetivo de fazer o mundo rir. Não era a primeira vez: em 2001, Álvaro Neil se tornou o Biciclown e percorreu a América Latina durante três anos, passando por vários países montado em uma bicicleta. Viciou-se no riso, em viver com o mínimo e em viajar. Quando voltou, começou a planejar seu projeto seguinte: Miles of smile around the world (MOSAW), dez anos de viagem, nos quais daria a volta ao mundo com o objetivo de “oferecer gratuitamente seu espetáculo de clown às pessoas mais humildes”.

O Biciclown durante uma atuação na Tanzânia

Saiu da Espanha há cinco anos e “se passarão pelo menos outros tantos antes de retornar”, diz. Álvaro pedala cerca de cem quilômetros por dia; ao fim do mês, uns 1.500, que faz sozinho. Vez ou outra encontra companheiros de viagem: “se eu como, ele ou ela também comerá”, diz em seu site.

Viaja por todo o mundo de bicicleta, atravessa montanhas, desertos e cidades, e, ainda assim, consegue estar hiperconectado. “Há internet por todos os lados. Paro uma ou duas vezes por dia para atualizar o site e responder e-mails”. Agora mesmo, mantém tanto Biciclown, com abundante material gráfico e audiovisual, quanto o espaço do documentário Biciclown, a la velocidade de las mariposas, que realizou com Filmina Docs. Além disso, graças a esse site pode também vender os livros que escreveu e que servem para financiar a rota.

Nos próximos seis meses, estará fazendo rir a gente humilde da China e ainda lhe restam quatro anos, ou mais, reconhece, para continuar presenteando a arte do palhaço. Leva nas costas quase 80 mil quilômetros, e defende o que faz apesar daqueles que o tacham de louco.

PERGUNTA: O que te levou a começar o MOSAW? Você o faz por compromisso, solidariedade ou aventura?

ÁLVARO NEIL: Quando terminei meu projeto Kilómetros de Sonrisas en Sudamérica (2001-2003) – durante o qual percorri de bicicleta, sozinho, dez países e ofereci 49 espetáculos gratuitos de clown –, queria mais. O corpo tinha se acostumado a essa vida nômade e o mapa-múndi me chamava em cada parede que o via pendurado. O projeto MOSAW (2004-2014) é a minha vida. Uma vida de aventura na qual o palhaço vai presenteando a sua arte ali onde ela é necessária. É um compromisso com a minha consciência.

P: Por que você empreende esse projeto tão longo no tempo (dez anos), com tantos quilômetros sozinho?

A. N.: Não acredito que se possa dar a volta ao mundo de bicicleta em cinco anos. Mesmo havendo gente que fez isso e que não colocou as rodas na África. O mundo é muito grande e, de bicicleta, você viaja à velocidade das borboletas. Meu plano inicial era de dez anos, mas não acredito, afortunadamente, que o cumpra. Serão mais anos.

P: Você está desde 2004 montado em uma bicicleta percorrendo o mundo, por onde tem visto pobreza e fome. Deve ser duro não perder o sorriso nem a vontade.

A. N.: A pobreza e a fome não me fazem perder o sorriso. Mas quando você oferece o seu projeto por e-mail à Embaixada da Espanha no Vietnã e um funcionário responde, sem assinar a resposta, que, sendo uma iniciativa privada, eles não têm por que me facilitar contatos no país para que eu atue, grátis, o sorriso congela e dá vontade de…

P: Sobre a produção das suas viagens, imagino que a improvisação impera. Mas como você consegue realizar espetáculos, palestras… você está em contato prévio com algum tipo de organização local?

A. N.: Pura improvisação. Às vezes alguém que lê meu site tem um parente num país que vou percorrer e me facilita contatos, outras vezes a Embaixada do meu país tem interesse em organizar algum espetáculo ou conferência; até agora, levei 54 espetáculos para mais de 18 mil pessoas.

P: Como você decide a sua rota? Ao viajar de um país a outro, é preciso acertar papéis com embaixadas e todo o resto, algo que toma muito tempo.

A. N.: Planejar é parte da viagem. Assim como responder a esta entrevista, ou catalogar as fotos que tiro, ou lavar minha roupa à mão. A rota vai saindo sem querer. Um país te nega um visto e você já sabe que terá que visitar o vizinho do lado. O inverno ou as monções podem fazer com que você tenha que dar algumas voltas de milhares de quilômetros. É parte da graça desta vida.

P: Você tem patrocinadores, o projeto está aberto a colaborações cidadãs, os livros, o documentário… não sei se o financiamento alcança para cobrir o projeto, a rota…

A. N.: Este projeto é financiado em 60% com o meu dinheiro, 20% com patrocinadores que me dão parte do material, e os 20% restantes com o dinheiro que eu vou encontrando pelo caminho, como, por exemplo, a venda dos meus livros ou dos meus DVDs ou gente que deposita alguns euros na minha conta da Caixa. Sem meus amigos, sem as pessoas que difundem este projeto e o meu site, seria impossível.

Álvaro Neil em sua passagem por Istambul

P: Além de fazer a rota para provocar o riso com os seus espetáculos, você leva dinheiro a algumas comunidades ou organizações locais?

A. N.: Quando conheço projetos locais dignos de interesse, comento em meus escritos no site. Depois, os leitores se organizam e ajudam. Foi assim que enviaram remédios a um hospital do Congo ou de Gabão. Mas não quero que os meus espetáculos envolvam dinheiro. São sempre gratuitos porque se dirigem a setores desfavorecidos da população.

P: O que você acha que falta para nós, que vivemos na sociedade do bem-estar, que você vê nessas zonas tão pobres que visita?

A. N.: Ilusão, capacidade de surpresa, de valorizar o presente sem pensar tanto no amanhã. Quem não tem nada desfruta com muito pouco. Quem tem muito precisa de mais para ser feliz. É pura matemática social.

P: Você nota diferenças de uma zona a outra, de um país ou continente a outro, na hora de rir, de reagir aos seus espetáculos?

A. N.: Claro. Nem todo mundo ri das mesmas coisas. Nos países árabes sempre me custa mais, porque são sociedades mais rígidas e a magia que eu faço, embora seja com senso de humor, nem sempre é bem vista.

P: Suponho que será complicado eleger um momento, uma história para destacar.

A. N.: Para mim, cada dia tem as suas histórias. Agora mesmo recebi um e-mail de uma pessoa que não conheço e que com 17 anos me diz o seguinte. Acho que suas reflexões são muito especiais.

“Simplesmente fiquei surpreendido com o que você faz. Durante toda a minha vida tenho buscado preencher esse vazio que tinha nos meus sonhos. Definitivamente, quero fazer o que você faz. Sempre amei dar alegria às pessoas, sorrir um pouco; pois acho que a felicidade é o objetivo do ser humano, e essa felicidade a gente consegue quando faz o que ama. Se somos felizes, faremos felizes aos demais e o carma se encarregará do resto. Tenho 17 anos, quase 18. Sei que você vai pensar que talvez eu esteja sonhando muito, mas sei que o seu projeto precisou de uma organização exaustiva, dedicação, esforço, economia e muita valentia para ser realizado. De todo modo, quero viver assim. Encontro na sua vida a melhor forma de viver, as melhores comodidades e um amor puro. Gostaria que você me desse alguns conselhos para fazer bem o que você faz. Vou estudar Comunicação, e tenho muita vontade de, em alguns anos, começar uma viagem como a sua, pouco a pouco, à velocidade das borboletas. Muito obrigada, meu irmão”

P: Você alguma vez pensou em abandonar o projeto?

A. N.: Este projeto é a minha vida. Abandoná-lo é como me jogar de uma ponte. Não tenho aonde ir além de aonde os meus sonhos me levam. O caminho fácil não me interessa.

P: Como pode ser um dia-a-dia do Biciclown?

A. N.: Cada dia é diferente. Ainda que pedale cinco dias no deserto, um dia é diferente do outro. O vento, as pessoas o fazem diferente. Pedalo de sol a sol, consigo algo de comida e procuro onde dormir. Satisfaço minhas necessidades básicas com pouco dinheiro e encho o meu coração de experiências impagáveis.

P: O que pode acontecer com a sua vida, uma vez finalizado o MOSAW?

A. N.: Se o soubesse, ficaria deprimido. Aprendi a viver na incerteza e a desfrutar dela. Para alguns, a incerteza é insegurança; para mim, é emoção.

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