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Pagar com tempo

by em junho 28, 2010

por Lydia Molina
tradução de Janaína Marcoantonio
leia aqui o artigo original em espanhol

Os bancos do tempo são um sistema de intercâmbio de serviços por tempo
Converteram-se em uma via para a integração social dos imigrantes
“Se preciso ir ao médico, mas não tenho com quem deixar meu filho, chamo as usuárias do te
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Cartaz do Banco de Tempo de Pinoso

Sua persiana quebrou ou você acabou de chegar à Espanha e precisa praticar o idioma. A solução costuma custar dinheiro, mas há quem economize euros pagando com horas. Os bancos do tempo não são um fenômeno novo. De fato, têm-se espalhado por toda a geografia espanhola. O mecanismo é muito simples: uma pessoa oferece para ensinar alguma habilidade ou resolver um problema e, em troca, os outros a ajudam em algo que necessite. A gestão é a de um banco convencional, só que sem euros. O usuário abre uma conta corrente de tempo, à qual vai somando ou subtraindo horas em função dos serviços que dê ou receba. A forma de pagamento é um cheque por cada hora de trabalho.

Gloria Córdoba se oferece como acompanhante para visitas ao médico, para o cuidado dos filhos, para dar aulas de informática e para resolver assuntos domésticos em geral, como trocar uma lâmpada ou mover uma estante. Entrou no Banco do Tempo do Centro Europeu de Estudos sobre Fluxos Migratórios (Cemigras) de Las Palmas há seis meses. “Se tenho que sair para ir ao banco ou ao médico durante duas ou três horas, mas não tenho com quem deixar meu filho, chamo as usuárias do tempo. Agora estou tramitando o certificado de invalidez de meu filho e estava enrolada com os documentos que precisava apresentar, pedi ajuda e estão me assessorando com a documentação.” Glória é colombiana e chegou à Espanha há quase dois anos.

Além de lhe oferecer esses serviços, o Banco a tem ajudado em sua integração. “Aqui na Europa, as relações com o vizinho não são como no meu país, em que você faz amizade com a pessoa ao lado. Aqui é mais formal. O Banco me ajuda a conhecer gente. Não só outras colombianas, também há peruanas, bolivianas, chilenas, brasileiras, tem gente de toda a parte.” Noventa por cento dos usuários do Banco do Cemigras são estrangeiros.

“É uma via para a integração social, porque temos em um mesmo balaio espanhóis e imigrantes. Empenhamo-nos para que haja diversidade. Com o Banco, temos disponível um observatório privilegiado para conhecer os problemas daqueles que vêm de fora”, conta Manuel Ferrer, coordenador geral do Centro Europeu de Estudos sobre Fluxos Migratórios (Cemigras). Lá, os serviços mais solicitados são os relacionados com o aprendizado de informática, culinária e idiomas. “Isso é algo pontual. Não se trata de um curso intensivo, e sim de classes pontuais ao filho antes de uma prova, imigrantes que querem praticar espanhol de vez em quando ou gente que quer viajar para o exterior e pode se beneficiar com uma aula de inglês, por exemplo.”

O Banco do Tempo de Cemigras ainda é jovem. Nasceu no verão do ano passado e tem 50 usuários. Mas há também bancos veteranos, como a Associação de Saúde e Família, que começou a trabalhar em 1998 e já conta com uma rede de bancos por toda a Espanha. “Quando começou, o perfil era de mulheres de meia idade que solicitavam serviços domésticos, mas hoje 35% são homens, e há um setor de estudantes universitários que está entrando em massa. São gente jovem que participa de plataformas a favor do decrescimento ou que trabalha em temas de meio ambiente e consumo responsável. O perfil se ampliou, assim como os campos de ação”, assegura Josefina Altés, coordenadora da rede de Bancos do Tempo dessa organização.

O intercâmbio de serviços atravessou fronteiras. “A incorporação das novas tecnologias e a capacidade de nos conectarmos com outros países aumenta a variedade de nossos intercâmbios. Temos um convênio de colaboração com uma rede italiana. Se um usuário diz que precisa ir a Milão, alguém do banco de lá pode lhe oferecer alojamento. Esse usuário italiano depois pode vir a Barcelona e ficar na casa de um usuário do banco do tempo daqui, ou então lhe dão seis horas de tempo no banco da Itália por ter recebido essa pessoa em sua casa”, conta Atlés.

Elisabeth Casanova tem problemas de visão e participa do banco há seis anos. Ela “compra” leitura. “Vejo muito borrado. Posso andar sozinha pela rua ou atravessar um semáforo, mas ler é muito difícil para mim. Por isso, peço que venham ler alguns artigos ou documentos. Uma vez, fiquei hospitalizada, e quando saí pedi alguém para buscar meus remédios; outra vez consertaram a porta de um móvel que caiu e uma luminária que tinha uma lâmpada queimada”. Tarefas domésticas que para Elisabeth demandavam muito esforço.

Os serviços mais solicitados dependem da zona em que esteja o banco do tempo. Os bairros com altos índices de população imigrante costumam ter muita demanda de prática de espanhol ou conhecimento dos arredores. “Para os imigrantes, é um ponto de referência, em que recebem, mas também dão muito. Além do resto dos serviços, eles ensinam seu idioma, seus costumes ou a cozinhar, entre outras coisas. É mais uma parte do processo de inclusão social”, afirma Josefina Altés. Não há desculpas, aprender a fazer cuscuz é questão de tempo.

Exemplo de um modelo de cheque de tempo (ONG Azuopolis)

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